domingo, 9 de setembro de 2007

Deu no CorreioWeb... Absurdos que se cometeram no passado e colhemos os frutos agora

Brasília, domingo, 09 de setembro de 2007

Lista das vítimas do césio 137 em Goiânia não pára de crescer

Renato Alves e Guilherme Goulart - Do Correio Braziliense

09/09/200708h47-Goiânia (GO) — Vinte anos após o maior acidente radioativo mundial em uma área urbana, a capital goiana ainda conta as vítimas do césio 137. A lista de contaminados e mortos não pára de subir. E, provavelmente, nunca será concluída. Não existe um controle exato de pessoas expostas à radiação. No mais recente levantamento feito por autoridades estaduais e federais, 743 cidadãos são apontados, oficialmente, como vítimas da tragédia ocorrida em 13 de setembro de 1987. É sete vezes mais que o divulgado pelas autoridades, em 1988, quando foram listadas 102 vítimas. O novo levantamento inclui duas vítimas reconhecidas agora, mais 61 crianças nascidas após o acidente e os 578 funcionários públicos expostos ao risco. Os filhos do césio nasceram de pais contaminados pelo pó branco de brilho azul. O produto vazou de um aparelho de raios X abandonado em um hospital desativado, no centro de Goiânia, e violado por dois catadores de sucata. As outras vítimas são servidores públicos — médicos, enfermeiros, bombeiros e policiais militares. Também trabalhadores de baixa renda foram colocados em perigo — alguns do Consórcio Rodoviário Intermunicipal e da construtora Andrade Gutierrez. Todos tiveram contato direto com o material radioativo ou trabalharam na descontaminação. Nenhum recebeu roupas especiais para concluir o serviço em segurança. Assim, sofreram os efeitos diretos da radiação e carregaram resíduos do césio 137 nas roupas, contaminando familiares, amigos e vizinhos. Apesar de reconhecidos pelo poder público como vítimas do acidente, a maioria dos servidores estaduais e municipais não conta hoje com qualquer tipo de ajuda. Levantamento feito pelo Correio, a partir de dados do Ministério Público de Goiás e dos sindicatos das categorias, revela que ao menos 40 servidores morreram sem conseguir assistência médica ou financeira do poder público. Outros 170 tentam um auxílio, ainda em vida, brigando na Justiça. Oficialmente, só foram reconhecidas até agora 14 mortes em decorrência da exposição ao césio 137. O número é contestado por associações de vítimas do acidente e por promotores públicos, que apontam 66 casos. Os envolvidos na tragédia entendem que o número de contaminados é maior do que o reconhecido pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Os técnicos examinaram 112 mil pessoas na época do acidente. Aquelas com índices mais elevados de contaminação foram colocadas em quarentena no prédio da Febem. Das 120 pessoas que sentiram os efeitos da radiação, 49 foram internadas e 21, submetidas a tratamento intensivo. Quatro morreram em menos de quatro meses. Entre elas, a menina Leide Ferreira das Neves, 6 anos, que virou símbolo da tragédia. As vítimas identificadas pela Cnen foram divididas em dois grupos: o primeiro para aqueles com altos índices de radiação e, o outro, com menor índice. A esses, bem como às segunda e terceira gerações de descendentes, foram asseguradas pensões vitalícias de até R$ 800, além de assistência médica integral, que inclui os medicamentos. Os médicos Orlando Teixeira, Criseide Dourado e Carlos Bezerril, responsáveis pela clínica abandonada onde o césio foi achado, e o físico hospitalar Flamarion Goulart foram condenados a três anos de prisão em regime semi-aberto por homicídio culposo (sem intenção). Bezerril cumpriu um ano de prisão, sendo beneficiado por um indulto de Natal. Dourado e Teixeira também ficaram só um ano na cadeia. O segundo abandonou a medicina após a tragédia. Hoje é fazendeiro e empresário em Mato Grosso e atende esporadicamente em hospitais da região. O processo de Flamarion está em fase de apelação. Teixeira e Bezerril são sócios de um hospital de tratamento de câncer, em Goiânia. Os três não foram localizados nem retornaram as ligações do Correio. Goulart mora em Goiânia, mas não falou com os repórteres. Foi ele quem sugeriu as primeiras providências para o caso, como evacuação dos locais de contaminação e a triagem realizada no Estádio Olímpico de Goiânia para identificar possíveis atingidos pelo produto. O médico José Ferreira Silva, chefe da Superintendência Leide das Neves (Suleide), criada para atender as 104 vítimas reconhecidas pelo estado em 1987, não acredita na potencialização de doenças decorrentes do acidente. “Nesses 20 anos, não observamos nesse grupo nada de diferente do que ocorre na população normal. Muita gente busca a Suleide com doenças que dizem ser decorrência do césio. É preciso que haja nexo causal, que essas pessoas tenham sido expostas à radiação”, explicou. Técnicos da Cnen fazem medições das seis áreas mais contaminadas, a cada três meses. “Há césio nos focos. Vai demorar 300 anos para eles serem descontaminados”, conta o engenheiro químico Cesar Luiz Vieira Ney. Ele frisa que a radiação medida estabilizou há três anos e a quantidade é inofensiva. “Há menos radiação exposta que a encontrada em cidade brasileiras com anomalias, como Guarapari (ES) e Poços de Caldas (MG)”.